Sexto: Burros ao poder
E que ele me batesse e me estimasse…
Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena … “
Alberto Caeiro, in XVIII - Quem me Dera que eu Fosse o Pó da Estrada
Partimos para umas bombas mais á frente e aqui, não é preciso acordar ninguém. Os gasolineiros dormem ali ao lado das bombas embrulhados nuns cobertores. Atendem-nos prontamente, tentam enganar-nos nos trocos, mas tudo se resolve.
O francês do outro carro que nos acompanha pede indicações para sair da cidade em direcção a Rosso. Segundo o meu GPS seria cortar à esquerda na rotunda, mas o jovem diz que é á direita. Tudo bem, vamos então à direita! E até íamos bem, mas não demos com o cruzamento e enganámo-nos. Pelo caminho, com o nascer do sol ao fundo, um veículo semelhante a um automóvel, transportava perto de uma tonelada de peixe, uns no tejadilho, outros nos lugares dos passageiros, e outros ainda no porta-bagagens, com os rabos e as cabeças penderem para fora.
Rendemo-nos então às maravilhas da electrónica e decidimos seguir o GPS. Mas mesmo assim enganámos-nos de novo! Viramos no cruzamento errado e eis que estamos no caos do transito de Nouakchott! A cidade está a acordar, e o código da estrada é coisa de que esta gente nunca ouviu falar. Numas ruas conduz-se pela esquerda, noutras pela direita e em algumas pelo centro.
Apenas é preciso respeitar uma regra: os burros têm prioridade! E são ás centenas. Veículos de tracção animal, com lustrosos motores, alguns de grande cilindrada (3 burros) aceleram pelas ruas da capital. Para eles não há STOP’s nem prioridades! Os carros é que têm travões, as carroças não!
Entretanto o Sol já vai alto e encontramos finalmente a estrada que nos levará a Rosso. Pelo caminho burros e camelos “abastecem” nas ervas que crescem nas infindáveis planícies que eu pensava serem apenas de areia…
A viagem continua já a seguir, no Sétimo.



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